Em julho do ano passado, um vídeo viralizou mostrando um objeto nos céus da cidade de Curitiba. Na filmagem, via-se algo aparentemente discoide, de coloração preta acinzentada. As imagens rapidamente chamaram a atenção da comunidade ufológica brasileira e internacional, sendo amplamente compartilhadas em diversas redes sociais.
No entanto, não demorou muito para que aquelas imagens, já que se tratava de mais de uma filmagem do mesmo objeto, acabassem decepcionando muitos entusiastas.
Análises subsequentes mostraram que, na verdade, em vez de um disco voador, estávamos diante de um balão. Um balão que, embora não seja dos mais clássicos, é relativamente comum, um “balão do tipo estrela”.
Aqui no Ovniologia, já publiquei uma série de matérias com o tema “Não são OVNIs”, e uma delas é “Balões não são OVNIs”, com o intuito de ajudar os entusiastas a identificar, na medida do possível, por meio de exemplos clássicos, as más interpretações e equívocos mais comuns quando estamos diante de balões e não de objetos realmente desconhecidos.
E acreditem, existem muitos modelos diferentes, e também inúmeros casos envolvendo balões em que o observador acredita estar diante de algo “de outro mundo”.
A filmagem
A filmagem foi inicialmente divulgada por uma página voltada a conteúdos ufológicos no Instagram. Na descrição, eles afirmaram ter recebido o vídeo de uma seguidora, posteriormente identificada como Michelli Azuma. Diante da grande repercussão, ela se sentiu na obrigação de publicar a filmagem em sua própria conta no Instagram, acrescentando também algumas informações.
Segundo Michelli, o objeto foi registrado no dia 25 de dezembro de 2025, no dia de Natal, às 9h52, utilizando um iPhone 16. Ela também afirmou que não se trata de conteúdo gerado por inteligência artificial e acredita que o objeto se deslocava na mesma velocidade do carro, aproximadamente 100 km/h.
O registro teria ocorrido na Rodovia Anhanguera, no sentido do interior, na região de Campinas, São Paulo, próximo aos quilômetros 85 a 88.
Sensacionalismo e falta de cautela
É muito comum ficarmos entusiasmados diante de uma boa filmagem de um possível ou provável UFO, especialmente devido à escassez desse tipo de registro. Quando surge algo que pode de fato aparentar mostrar um OVNI, um disco voador e/ou uma nave de outro mundo, a racionalidade muitas vezes é deixada de lado e a emoção passa a dominar.
No caso do chamado OVNI de Curitiba, no ano passado, foi exatamente isso que ocorreu. Qualquer um que inicialmente assistiu àqueles vídeos acabou se convencendo de que estava diante de uma belíssima filmagem de um disco voador pairando sobre Curitiba.
No entanto, não demorou para que os observadores mais cautelosos começassem a levantar questionamentos e a aplicar a chamada “técnica de descarte”. Sim, quando se trata de fotografia e/ou filmagem, existe um procedimento que deve ser seguido para que se chegue à conclusão de que o que estamos observando pode de fato ser um UFO.
Para isso, utiliza-se a técnica de descarte, que consiste em buscar, de forma prioritária e incansável, qualquer explicação alternativa que não seja a de um objeto desconhecido. Procura-se primeiramente identificar todas as possibilidades conhecidas.
E foi nesta que exemplos bastantes lógicos e plausíveis e até idênticos surgiram, logo, o “balão estrela solar” apareceu e matou a charada.

Neste caso agora, a afirmação de “nave extraterrestre”, sem nenhum critério mínimo de avaliação, ganhou impulso a partir da página que foi responsável pela divulgação inicial. Os chamados “Pesquisadoresovnis” parecem não ter feito o dever de casa e rapidamente trataram de extrair um print do objeto na filmagem e utilizar inteligência artificial para “melhorá-lo”.
O resultado: um “disco voador arquitetônico” e aparentemente inquestionável.
Acontece que é de conhecimento comum, e principalmente no meio da comunidade ufológica, que essa prática de uso de IA para melhorar imagens desfocadas e sem detalhes é irrelevante quando se busca a aparência real do objeto. Ora, a IA não é capaz de descobrir o que uma imagem realmente é ou revelar detalhes que simplesmente não existem nela.
Ela apenas infere informações com base em padrões aprendidos em vastos conjuntos de dados de treinamento, em vez de extrair dados reais da imagem original.
Resumindo, a IA tende a produzir uma imagem de acordo com o que ela dispõe e com seus padrões internos, e não necessariamente mostrar o que a imagem realmente é.

A velocidade do objeto – “se fosse um balão não voava tão rápido”
Um dos questionamentos mais comuns que surgiram após a explicação do balão é a alegação de que o objeto no vídeo estaria rápido demais para ser um balão. “Que balão viajaria naquela velocidade?” é um dos comentários que mais se repetem.
Primeiro, é importante destacar que não sabemos a velocidade real do objeto. Um balão pode, sim, ser conduzido a uma velocidade considerável, dependendo da altitude e da velocidade do vento.
Segundo, embora não seja muito comum nem amplamente conhecido pelo público em geral, essa velocidade aparente pode ocorrer devido ao chamado efeito de paralaxe. Trata-se do deslocamento aparente de um objeto causado pela mudança do ponto de observação e, sim, em uma filmagem isso pode influenciar significativamente a percepção do movimento.
Existem diversos vídeos na internet que demonstram esse fenômeno de forma extraordinária e até assustadora. Frequentemente, eles aparecem com títulos como “falha na Matrix”. Um dos exemplos mais famosos é o do avião aparentemente imóvel, “parado” no ar.
No entanto, a aeronave não está realmente parada. É o observador que está em movimento, criando essa ilusão visual.
Agora observe o vídeo abaixo. Trata-se da filmagem de um avião, um Airbus A380. A princípio, ele se desloca em linha reta, mas basta o observador movimentar intencionalmente a câmera de forma a provocar o efeito de paralaxe para que, rapidamente, o avião passe a aparentar um comportamento anômalo, transformando-se visualmente em um “OVNI” e começando a “saltar” na imagem.
This A380, flying from San Francisco to London flew over my house just now, and gave a great example of the destabilized parallax illusion. pic.twitter.com/d0ZwGPJP47
— Mick West (@MickWest) July 26, 2023
E é o efeito de paralaxe que deve ter implicado na filmagem de Campinas. Mesmo quando o objeto e o observador se deslocam na mesma direção, o efeito de paralaxe pode ocorrer, desde que exista diferença de distância, tamanho, velocidade ou ângulo em relação ao fundo, criando a impressão de movimentos que não correspondem ao deslocamento real do objeto.
Um bom exemplo está na filmagem de um OVNI que mudava de forma, um “metamorfo”, registrado por diferentes testemunhas na Praia de Unamar, em Cabo Frio, Rio de Janeiro, em maio de 2020.
Em um dos registros, devido à velocidade do automóvel e, consequentemente, do observador que estava filmando, surge a impressão de que ele também estava se deslocando na mesma velocidade. Inclusive, é perceptível na filmagem que, quando o automóvel diminui a velocidade, o objeto também parece diminuir.
Portanto, ao meu ver, é o carro se movendo a aproximadamente 100 km/h, como relatou Michelle, que cria a aparente percepção de alta velocidade do suposto OVNI.
Outros indícios
Na postagem feita pela autora do vídeo, encontramos comentários variados. Muitos acreditam se tratar de um legítimo disco voador, enquanto outros acreditam ser um balão.
Em um dos comentários, um usuário relatou que viu um balão estrela sendo lançado no dia do ocorrido, pela manhã, na região próxima.
Ele escreveu:
“Moça, eu e minha esposa vimos esse balão sendo solto por volta das 6h30 do dia 25 de dezembro, na Rodovia SP-101, entre Campinas e Hortolândia, precisamente no bairro Santa Isabel. Eu até falei para minha esposa que o povo ia pensar que era uma nave quando caísse a ‘faixa que ele carregava’.”
O comentário é o mais curtido da postagem.
Outro usuário também afirmou saber onde o balão caiu. Ele disse que se tratava de um balão estrela, que teria caído próximo ao Parque Engordadouro, em Jundiaí.
“Balão estrela, caiu próximo do parque engoardadouro em jundiai, filmagem foi no km 65 da anhanguera, tanto que na filmagem da pra ver a cruz da igreja santo Antônio de Pádua”.
Além disso, pesquisando no YouTube, descobri que, no dia 25, um balão solar foi solto ao final de um baile de Natal no Jardim Brasil, um bairro de Campinas que fica relativamente próximo da Via Anhanguera, local da filmagem do suposto UFO.
Embora o balão do vídeo seja um balão solar do tipo “charuto” e não em formato estrela, isso pode indicar que outros tipos de balões também tenham sido soltos na região.
O caso dessa filmagem de Natal em Campinas, após análise, parece mostrar um balão e não um disco voador. É necessário, posteriormente, identificar quando e por quem o balão poderia ter sido lançado, assim como onde ele pôde ter caído. Acredito que essas informações aparecerão, já que houve lançamentos de balões solares naquela data e na região da filmagem.
Isso não é apenas decepcionante, mas também esclarecedor e necessário quando nos deparamos com situações desse tipo. Ninguém gosta e nem deve ser enganado, especialmente dentro do universo ufológico, onde confusões como essa são relativamente comuns.
Não são apenas nossos olhos e percepções que podem nos enganar, mas também a falta de conhecimentos mais profundos sobre casos comparativos, exemplos similares e sobre técnicas e efeitos que podem influenciar a observação.
Embora não possamos emitir um veredito final, a hipótese do balão parece ser a mais plausível, sensata e real.
