Daniel Fry, Antonio Urzi, Maurizio Cavallo e, agora, Mayk Leão. Todos eles alegadamente fizeram impressionantes registros do fenômeno UFO, mas, igualmente, todos esses casos nos ensinaram alguma coisa: o que os olhos veem, a boca fala e as câmeras registram talvez nem sempre representem o que realmente é.
No último dia 31 de maio, a internet foi tomada por um alvoroço.
No município de Campo Largo, na região metropolitana de Curitiba, estado do Paraná, um influenciador surgiu com alguns stories que mostravam o que parecia ser um grande OVNI multicolorido repousado no alto de uma serra. Em pouco tempo, as imagens impulsionaram aquele que viria a ser um dos casos mais comentados e até mais amados da ufologia brasileira moderna.
Mayk Leão, em seus stories, publicou uma série de vídeos que começou durante a manhã e se estendeu pela tarde até o início da noite. Num primeiro momento, o também resgatista de animais parecia destinado a entrar para a história da ufologia brasileira.
Tudo começou assim:
Nas primeiras gravações, feitas durante o dia, Mayk Leão relatou que algo incomum parecia estar acontecendo na área. Segundo ele, os animais da propriedade estavam visivelmente agitados e olhavam repetidamente para um pasto próximo. Inicialmente, ele suspeitou da presença de uma onça-pintada. No entanto, decidiu investigar a situação por conta própria.
Ao se aproximar do local, ele avistou uma motocicleta. Isso o levou a acreditar que poderia ser alguém colhendo pinhões ou laranjas-ponkan, frutas cultivadas por sua mãe. Ele explicou que o local fica perto da casa dela, situada mais abaixo na montanha, e que é comum, em regiões rurais, moradores entrarem em áreas arborizadas para colher frutas.
Convencido de que nada de incomum estava acontecendo, ele continuou sua inspeção e se deparou com um trecho da cerca que havia sido derrubado, reforçando ainda mais sua impressão de que alguém havia passado recentemente pela área.
Contudo, em stories posteriores, a situação começou a assumir um tom muito mais estranho. Ele comentou que o céu estava repleto de rastros de condensação de aeronaves e especulou que um número incomumente grande de aviões ou jatos havia sobrevoado a região ao longo do dia e, achou aquilo fora do comum.
Pouco depois, enquanto estava próximo a uma área arborizada da propriedade, ele relatou ter ouvido um som que inicialmente descreveu como um “rosnado”. Em seguida, reconsiderou e afirmou que se parecia mais com “uma pessoa engasgando”. Ao tentar explicar o que ouvira, teve dificuldade em encontrar uma comparação adequada para o ruído.
Em outro momento, afirmou ter ouvido um som alto muito próximo da residência, semelhante ao estalo de uma corda extremamente esticada. Apesar da natureza incomum dos sons, enfatizou repetidamente que havia algo distintamente “humano” neles, como se estivessem sendo produzidos por uma criatura viva e biológica.
Segundo o influenciador, vários seguidores sugeriram que os ruídos poderiam ter sido causados por um javali. Ele rejeitou a hipótese, argumentando que as câmeras de segurança da propriedade não registraram a presença de nenhum animal desse tipo. Além disso, afirmou estar bastante familiarizado com os sons emitidos por javalis e insistiu que o que ouviu não tinha qualquer semelhança com eles.
Mais tarde, já no decorrer da tarde, ele publicou outro story, visivelmente assustado. Nas imagens, o som estranho que vinha descrevendo ao longo do dia poderia ser ouvido com relativa clareza.
Então, conforme a noite se aproximava e a escuridão se instalava sobre a região, surgiu o elemento mais intrigante de toda a sequência. Um objeto luminoso apareceu em uma área isolada da serra, exibindo luzes oscilantes e multicoloridas. Para o influenciador, o objeto parecia fornecer uma explicação para os acontecimentos incomuns relatados ao longo do dia, tornando-se o foco de uma série de gravações.
Ele então entra em um estado de frenesi, numa aparente mistura de medo e excitação diante do que estava vendo e filmando.
Mayk descreve o objeto como redondo e faz questão de enfatizar que, no local onde se encontrava, não havia estradas nem qualquer tipo de infraestrutura. “Não há nada”, afirma, reiterando que se tratava de uma área verdadeiramente isolada, sem vias de acesso.
Embora não seja possível determinar as dimensões exatas do objeto a partir das imagens registradas, ele acreditava que visualmente parecia ser muito grande, estimando cerca de 60 metros de diâmetro. Também chamou a atenção para o fato de suas luzes piscarem constantemente, uma característica frequentemente associada a inúmeros relatos de OVNIs documentados nas últimas décadas.
Pouco tempo depois, em outro story, ele conta que a luz começou a perder intensidade gradualmente, tornando-se cada vez mais fraca até desaparecer completamente.
Nos minutos seguintes, ainda muito assustado e em estado de choque, ele tenta processar tudo o que havia presenciado. Segundo seu entendimento, o objeto permaneceu visível por aproximadamente vinte minutos na região montanhosa e definitivamente não era um avião, helicóptero ou balão.
Quando tudo parecia ter acabado, ele publica um novo story afirmando que o fenômeno havia retornado. Desta vez, descreve o objeto como vermelho e, novamente, de grandes proporções. Olhando para o céu e aparentemente mais preocupado em registrar a própria reação do que o fenômeno em si, afirma que o objeto havia acabado de passar sobre sua residência e exclama: “É enorme!”.
É então que seu depoimento se torna ainda mais intrigante. Segundo ele, o objeto estava dentro do rio e emergiu da água diante de seus olhos. No entanto, mais uma vez, uma tal alegação extraordinária não é registrada em vídeo.
Pouco depois, ele divulgou uma gravação mostrando um ponto luminoso piscando no céu, alegando que as luzes estavam se afastando. Ao longo de todo o relato, permaneceu convencido de que se tratava de algo gigantesco.
A partir daí, e resumidamente, atendendo a pedidos dos seguidores, Mayk fez uma ilustração à mão do que alegava ter visto.

Tínhamos então em mãos o que parecia ser o caso mais promissor da ufologia moderna no Brasil. Mas…
Quem acompanhou no dia seus stories e manteve um senso crítico, pode observar algumas inconsistências que ora poderiam ser explicadas por seu espanto e frenesi e ora poderiam se demonstrar ignoráveis e intencionais.
Primeiro, fazendo uma mea culpa, o ponto principal começa quando a comunidade ufológica passa a se referir ao alegado objeto como OVNI, Objeto “Voador” Não Identificado, a algo que claramente não estava voando e que em nenhum momento foi demonstrado assim.
Se observamos a sequência de seus vídeos, como já citado mais acima, nenhuma das suas impressionantes alegações foram documentadas. Mayk não filmou o suposto OVNI emergindo do rio (que por sinal não possui nem profundidade nem dimensão pra abrigar um UFO de 60 metros), não registrou o objeto se elevando ou descendo e muito menos registrou sua passagem quando este olhava para cima e, ao invés de virar a câmera, a manteve a todo momento direcionada para seu próprio rosto.
Considerações que, claro, não passaram despercebidas, embora o grande apelo popular e emotivo do momento, por pessoas mais sensatas e críticas, como o analista de imagens, investigador e ufólogo Jorge Uesu, que mencionou-as em vídeo em sua conta no Instagram.
Tudo meticulosamente arquitetado?
Bom, neste ponto, realmente não podemos afirmar, mas também seria impossível ignorar algumas semelhanças do que Mayk disse ter vivido e presenciado com o mais recente filme do aclamado diretor Steven Spielberg, “Disclouse Day”, que será lançado em poucos dias nos cinemas do Brasil.
Se observamos os sons que Mayk disse ter ouvido próximo à sua casa e quando este tenta reproduzi-los, é inegável a similaridade com os sons emitidos pela atriz Emily Blunt no filme de Spielberg. Além disso, o desenho feito por ele também alude à capa de pré-propaganda espalhada em outdoors pelo mundo e que foi bastante comentada.
Entretanto, seria muita audácia e até surreal imaginar que Spielberg tivesse entrado em contato com alguém aleatório do Brasil apenas para impulsionar, de forma implícita, seu filme. Ou não?
De qualquer forma, Mayk rapidamente conseguiu, de certa forma, estar ligado ao estrelato. Intencionalmente ou não, o rapaz, que faz um belo trabalho social de resgatar todo tipo de animal, rapidamente começou a conceder entrevistas a várias redes de notícia e também a receber propostas de parceria e propagandas, como da Magazine Luiza e do TikTok.
Neste ponto, ele conseguiu gerar ainda mais alvoroço quando, ontem, após postar alguns stories de propagandas para acessar QR Codes que levavam a baixar o aplicativo do TikTok Lite, seus seguidores acharam que ele havia tido sua conta hackeada, o que gerou um enorme número de comentários e ainda mais atenção para o seu caso.
Após isso, Mayk postou alguns stories explicando que não se tratava de jogos de apostas, mas de um aplicativo legal. Ainda por cima, marcou o próprio TikTok e outra conta que seria do representante da plataforma aqui no Brasil, mas logo em seguida apagou esses stories.
Enfim, o story que postaria a seguir seria sua própria carta de “entrega”. Mayk acabaria por levantar evidências contra si mesmo, no sentido do que, dias antes, havia dito ter registrado.
O objeto não parece nem “não identificado” e tampouco “voador”
Seguidores da página Ovniologia entraram em contato para relatar algo curioso que havia passado despercebido em um dos seus stories do dia 31: um outro ponto de luz próximo ao seu alegado OVNI. Este vídeo foi enviado a mim e posteriormente postado no Instagram. Veja.
Teríamos então dois OVNIs no local?
Bem, ontem, no final da tarde, Mayk postou um curto story e, por incrível que pareça, lá estava o mesmo “OVNI”, com a mesma luz à direita. Bum! Estavam decretadas ali duas possibilidades: ou o fenômeno havia retornado ao mesmo local exato, ou então estávamos diante de um grande equívoco.
Com uma legenda de “Gente, socorro”, e no vídeo afirmando “tem um negócio muito parecido e, do lado, tem um outro vermelho”, Mayk encerra a curta gravação e então não posta mais nada até mais tarde, à noite, quando, após apagar o story que havia postado, entra ao vivo em live, tirando a dúvida de que sua conta não havia sido hackeada e também mostrando o aparente fenômeno, mas dessa vez com uma narrativa diferente, de que na verdade se tratava de pessoas na serra forjando o que ele teria filmado dias antes.
Comentários dispensáveis quanto a isto. Para uma mente crítica, tudo já havia sido esclarecido.
O site Portal Vigília publicou ontem uma matéria na qual aponta dois locais possíveis que, na verdade, Mayk teria filmado e confundido (?) com o OVNI: a Chácara Paraíso ou o próprio camping da chácara.

A partir dessa análise, investigações posteriores passaram a consolidar a hipótese de que o fenômeno observado não se tratava de um objeto aéreo desconhecido, mas sim de luzes terrestres associadas à infraestrutura da própria região. O cruzamento de dados de geolocalização e observação de campo reforçou essa interpretação, indicando que a área possui relevo irregular e pontos de iluminação capazes de gerar efeitos visuais enganosos à distância.
Com isso, a leitura do caso se desloca de uma possível anomalia aérea para uma explicação mais plausível envolvendo fontes de luz fixas, vistas sob condições específicas de distância e perspectiva.
O site destaca, além disso, que na noite de ontem (04), representantes da Chácara Paraíso publicaram stories mostrando a iluminação da chácara, repleta de postes com potentes luzes brancas em intervalos regulares e varais de luzes alaranjadas que, à distância, com a perturbação da atmosfera e da vegetação entre a fonte das luzes e o observador, provavelmente provocaram a impressão de piscar.

O tom não afirmativo da matéria se dá ao fato de que, por exemplo, nenhum drone foi ainda levantado e deslocado até o local onde o alegado OVNI foi avistado. Canais voltados a voos com drones, como o conhecido Wanzamhobby, afirmam que irão averiguar a qualquer momento. Mas, cá entre nós, realmente isso é necessário?
Mayk, há dois dias, postou uma série de stories reclamando de importunação e violação de sua privacidade por parte de entusiastas, pesquisadores e ufólogos que se deslocaram até o local para obter maiores informações, o que gerou comentários e mal-estar. Agora, ir até a casa dele e filmar do ponto específico de onde ele filmou a área onde o “OVNI” estaria se torna impossível.
Afinal, equívocos deliberados ou uma trollagem intencional?
Este ponto é muito sensível. O caso Mayk representa, principalmente para a comunidade ufológica, um verdadeiro exemplo daquilo que, em seu livro “A confiabilidade do testemunho de OVNIs” (The Reliability of UFO Witness Testimony), os proeminentes pesquisadores e ufólogos V. J. Ballester-Olmos e Richard W. Heiden tentam expressar sobre os problemas e desafios apresentados pela confiabilidade dos testemunhos de OVNIs.
Porque, como já destacado mais acima, a testemunha deixou de registrar ou tentou não registrar aquelas que foram suas alegações mais extraordinárias. Falta de possibilidade ou vontade intencional?
Como um OVNI de 60 metros poderia sobrevoar uma residência com a pessoa atônita observando-o e simplesmente manter a câmera em seu próprio rosto, para posteriormente mostrar apenas um ponto luminoso muito distante em uma filmagem borrada?
Como um objeto emerge de um rio visivelmente diante dos olhos de uma pessoa que vive da prática de registrar, filmar e se filmar, que anda e estava a todo momento com um aparelho de filmagem em mãos, e ainda assim recorre apenas ao espanto diante do que vê, em vez de documentar o evento?
Pontos que nos ensinam, como entusiastas e pesquisadores do tema, a amadurecer e passar a adotar cada vez mais cautela diante da afirmação do desconhecido.
Mas, pendendo um pouco para o lado da testemunha, será que Mayk realmente não se confundiu? Pensou que realmente havia filmado um OVNI e, na verdade, filmou luzes de uma chácara?
Bom, algo impensável para uma pessoa que mora e vive na região, que não estava ali de passagem, mas que admira aquela vista diariamente durante todo o ano.
Se, dentro de uma tese de TCC, um estudante quisesse descrever a correlação entre os aspectos sociológicos e psicossociais, as interações humanas, a influência da mídia, das redes sociais e a fenomenologia ufológica moderna, este caso se apresentaria como um excelente objeto de estudo.
