Vira e volta, gosto de exercitar minhas pseudo-filosofias ufológicas. Já ousei determinar qual seria “O ardiloso e penoso trabalho do ‘Ufologista’ moderno”, já teci críticas aos portadores da “Síndrome Alienígena Desperta de Estocolmo” e também já questionei por que alguns “Relutam em uma possível origem extraterrestre para os OVNIs“. Abaixo, apenas mais um exercício de pensamento.
A ufologia é essa ufologia desde seus primórdios. Engana-se quem acha, pensa ou diz que algum dia ela foi melhor do que é hoje. Hoje, na verdade, ela está melhor, porém apenas no que diz respeito ao espaço de aceitação do tema como um todo no mundo, mas a forma da prática, em essência, permanece praticamente a mesma. Não falo da ufologia enquanto atividade restrita ao escrutínio militar, mas do período em que as investigações passaram ao âmbito civil. Não ousaria fazer uma crítica demasiadamente severa, mas acredito tratar-se de uma realidade infeliz. A meu ver, não tomamos as devidas precauções quando, como civis, passamos a imergir nesse complexo universo.
O que mais exigimos quando estamos diante de afirmações extraordinárias? Sim, a praxista “evidência” e, sobretudo, a indispensável: prova. No entanto, se no cotidiano adotamos essa postura diante de alegações comuns, por que, frente ao fenômeno UFO, esses critérios fundamentais parecem ter sido colocados de lado? Tudo bem, reconheçamos que quase sempre é “impossibilitável”. Ainda assim, é inegável que a manifestação do fenômeno ultrapassa as fronteiras do imaginável. Supor que entidades sencientes não humanas atuem de forma indiscriminada em nossa realidade existencial é, por si só, algo profundamente complexo e surreal.
O ser humano, historicamente habituado a se perceber como o único ente consciente capaz de construir e manipular artificialmente a própria existência, ao deparar-se com qualquer outro exemplo semelhante, inevitavelmente haverá de se sentir aterrorizado. Diferentemente dos seres que compõem religiões e credos, como espíritos, anjos, demônios, deuses, etc., as entidades descritas e testemunhadas na casuística ufológica são muito mais “próximas de nós”. Elas não se manifestam tão somente em sonhos, rituais ou consagrações ditas sacras, mas surgem de forma casual, aleatória, arbitrária e simplesmente. Isso altera profundamente o cenário de percepção daquilo que chamamos de “vida”.
Seres descritos como nós, com cabeça, tronco e membros, acompanhados de equipamentos e artifícios tecnológicos, estariam nos visitando e, pior, não fazemos ideia de quais seriam suas reais intenções. Mas o fenômeno não se limita a isso. Não se trata apenas de entidades semelhantes a nós. Para agravar ainda mais a questão, há relatos que apontam para senciências que parecem escapar à nossa “dimensionalidade”, seres possivelmente constituídos de algo além dos padrões conhecidos de ser e existir. São poucos, é verdade. Se observarmos as escalas de encontros próximos com essas entidades, veremos que ocupam uma parcela reduzida dos relatos. Ainda assim, estão presentes.
Além disso, mesmo aqueles que aparentam nossa materialidade também fogem aos padrões de normalidade, uma vez que lhes são atribuídas capacidades absolutamente extraordinárias, muito além do conhecimento que hoje dispomos. É nesse ponto que entram as chamadas “cogitações exóticas das procedências UFOnautas”. Dentro do universo dos contatos e das abduções, há uma série de fatores que fogem à nossa compreensão e nos deixam sem respostas. E o que fazemos diante de perguntas “irrespondíveis”? Criamos respostas. Conceituamos explicações que nos parecem possíveis. Isso, gostemos ou não, ocorre em todas as crenças humanas.
Quando não sabemos responder à pergunta existencial de uma criança, recorremos rapidamente a uma explicação definitiva: foi “Deus”. Percebo que a ufologia, enquanto postura humana, e não enquanto prática de pesquisa, caminha cada vez mais nessa direção. Há uma necessidade constante de responder ao que não compreendemos nem conseguimos explicar. Embora as possibilidades sejam numerosas, deixamos de lado as mais prováveis e passamos a abraçar as mais “exóticas”. Não seria honesto da minha parte negar completamente tais possibilidades, mas elas não me parecem “tão necessárias”.
Até poucas décadas atrás, havia certo consenso dentre entusiastas e ufologistas, ressalvadas exceções, de que os UFOnautas seriam oriundos de outros planetas. Mas por que sempre acreditamos nisso? Teria sido influência direta dos relatos iniciais da ufologia civil, que lhes atribuía essa origem, ou simplesmente por ser essa, baseada no conhecimento que dispúnhamos, a explicação mais plausível e difundida à época? Não era incomum, por exemplo, que contatados afirmassem ter mantido contato com seres de Vênus.
Hoje, muitos dos que defendem origens cada vez mais exóticas para os UFOnautas fundamentam-se, quando não em “apelo de autoridade”, no conhecimento científico atual, que permite uma visão mais ampla da realidade. Afinal, quem nas décadas de 50 ou 60 falaria abertamente em seres “ultradimensionais”? O problema é que há um risco claro nisso tudo. Pensemos: o que seres sencientes, inimaginavelmente mais avançados e oriundos de outro planeta do cosmos, não poderiam realizar que supostos seres extra, inter ou ultradimensionais poderiam?
Interferir na psique humana? Manipular a matéria subatômica? Controlar a luz? Se teletransportar? Viajar no tempo? A verdade é que não sabemos. Não sabemos o que a ciência futura nos reserva, nem o quão próximos daquilo que hoje chamaríamos de “magia” estaremos daqui a mil, dez mil ou cem milhões de anos. Se sobrevivermos e alcançarmos um nível tecnológico com um milhão de anos de desenvolvimento, será que não visitaremos planetas habitados por seres em estágio evolutivo semelhante ao nosso atual e que, por sua vez, nos verão como “deuses”? Essa é uma retórica clássica, mas que muitos parecem não se lembrar.
Eis o verdadeiro perigo: ao tornarmos as explicações exóticas para a procedência dos UFOnautas tão necessárias, corremos o risco de transformar a ufologia em “ufologismo” ainda mais.
Hoje estamos vivendo um episódio único no mundo. O Congresso americano vem, como nunca antes na história, buscando, por meio de audiências públicas, respostas para as perguntas que todos queremos. Isso é muito positivo. Políticos da nação mais influente do mundo cada vez mais falam abertamente sobre o tema. Acontece que existe algo por trás dessa conquista aparentemente positivista: por quais motivos e por quais meios essas perguntas estão sendo feitas, e essas respostas estão sendo dadas?
A republicana Anna Paulina Luna, uma das mais engajadas na política americana, copresidente do UAP Caucus – grupo bipartidário de membros do Congresso americano criado com o objetivo de trazer à tona a realidade do fenômeno UFO -, é também uma propagadora da crença de que os ufonautas são mais do que simples ocupantes de UFOs. Para ela, eles estariam muito mais no patamar “espiritual”. Assim também a republicana Marjorie Taylor Greene, que já afirmou acreditar que UFOs podem ser anjos caídos ou demônios. E, mais recentemente, vimos o vice-presidente dos EUA, J. D. Vance, afirmar que o fenômeno pode envolver “forças espirituais”.
Nesse cenário, o discernimento entre o possível e o provável perde força e, mais uma vez, o “ismo” cresce. Ao introduzirmos a ufologia no mesmo patamar do cristianismo, do espiritismo ou do zoroastrismo, deixamos de fazer “UFO” – objetos voadores não identificados – e “logia” – estudo. Existe uma diferença gritante entre interpretar manifestações religiosas, como a subida do profeta Elias aos céus na Bíblia, como uma abdução, e interpretar uma abdução como um arrebatamento divino.
Não quero dizer que tais possibilidades não possam existir, somente que não são “tão necessárias”.
Da natureza dos seres
Quão incomum seria um ser descrito na casuística ufológica? Um ciclope? Um “gosmento”, com asas? Um ser de luz? Não. Qualquer ser descrito na casuística será incomum, ainda que quase idêntico a nós, afinal, todos eles seriam não humanos. No entanto, o que suas características nos dizem sobre suas origens? Absolutamente nada. Factualmente falando, ninguém possui a capacidade de afirmar que um ser descrito como “nórdico” seria oriundo de um lugar ou realidade A ou B. Por quê? Porque não somos capazes de saber o que realmente está por detrás daquilo que nos é, ou foi, apresentado.
Muitos acreditam que os seres descritos como grays podem, na verdade, ser “robôs biológicos”. Alguns falam em “avatares”, enquanto outros os descrevem como criaturas desprovidas de alma. No entanto, tudo o que temos como base é a literatura casuística.
Em 2 de novembro de 1976, na Base Aérea de Talavera la Real, Espanha, alguns soldados avistaram um OVNI e, em seguida, dispararam metralhadoras contra uma figura humanoide verde brilhante, de cerca de três metros de altura. A entidade brilhou intensamente e desapareceu repentinamente. Trata-se de um caso intrigante, envolvendo uma entidade que aparentemente foge ao nosso padrão material. Mas como sabemos disso? Como sabemos que tal figura seria tão diferente, em natureza, de um ser nórdico? A ciência, em demasia, torna-se magia?
Teríamos nós capacidade, apenas visual ou observacionalmente, de determinar, de fato, a real origem e natureza de um acontecimento ou fenômeno sem compreendê-lo? São essas indagações que impõem uma limitação à perspectiva mais exótica.
Não acredito que haja uma conclusão definitiva. Um ser, por essência energética, proveniente de outro universo, dimensão ou realidade, não poderia atuar de forma “humana”? Como saberíamos que isso ocorreu? Como olharíamos para um extraterrestre vestindo um macacão e escafandro e afirmaríamos que ele não poderia ser um ser de energia? Um biorrobô, um robô ou algo que ainda não somos capazes de vislumbrar?
Um dos casos mais incríveis, surreais e bizarros do mundo é o Caso Paciência, ocorrido aqui no Brasil. Nele, o protagonista Antônio La Rubia descreveu seres talvez jamais relatados em qualquer outro caso conhecido. Ele afirmou ter visto três entidades distintas, descritas como figuras de aproximadamente 1,40 m de altura, com cabeças em forma de bola de futebol americano, contendo uma faixa horizontal de pequenas superfícies semelhantes a espelhos azuis ao redor da cabeça. Seus corpos eram ovoidais, de aparência metálica, cobertos por algo semelhante a escamas, com braços em forma de tentáculos que terminavam em pontas finas, sem mãos claramente definidas. Em vez de pernas, cada corpo repousava sobre uma única estrutura semelhante a um pedestal, que terminava em uma base achatada, parecida com um pequeno disco ou plataforma. Essas criaturas diferiam de qualquer entidade humanoide típica relatada em outros casos, apresentando um aspecto que muitos pesquisadores compararam a autômatos ou robôs estranhos, com uma fisionomia altamente não humana e desconhecida nos padrões usuais de encontros ufológicos.
Mas então, essas criaturas eram apenas criaturas ou uma espécie de robôs enviados por alguma outra entidade senciente para executar tais feitos? Será que não seriam uma espécie de inteligência artificial que se auto-organizou, dominou ou exterminou seus criadores e passou a criar corpos físicos para si? Corpos físicos esses adequados ao seu próprio padrão existencial?
O que eu quero dizer é que realmente não sabemos…
Das questões opinativas pessoais
Muitas são as pessoas que se prestaram, e ainda se prestam, mundo afora, a pesquisar e investigar o fenômeno, assim como aquilo que estaria por detrás dele. Homens e mulheres dedicam suas vidas inteiras, de forma minuciosa, a tentar compreender toda essa realidade. Aqueles que dispõem de uma técnica de pesquisa racional, cautelosa, severa e minuciosa são considerados ufólogos(as). A estes, nós, entusiastas e afins, devemos agradecimentos, pois são eles que realizam o trabalho prático, transformam os dados e os disponibilizam ao público.
Mas até que ponto tal ato é munido de sensatez e indiferença? Até que ponto os dados apresentados estão limpos, por exemplo, de crenças e achismos? Existe um patamar diferencial que parece ser ignorado por aqueles que consomem as pesquisas dos ufólogos e ditos ufólogos: aquilo que os dados realmente mostram, podem ou conseguem mostrar, e aquilo que são apenas “questões opinativas pessoais”.
Sim, como já mencionado, não temos respostas para as perguntas mais complexas, aquelas que exigem explicações inquietantes acerca da natureza central de quem são aqueles que estão e/ou estariam por detrás do fenômeno, ou de parte dele. E, se não temos, isso quer dizer que nenhum humano tem. Alguns, como o próprio Vallée, são humildes em afirmar que ainda “não sabem”, embora pessoalmente já possuam hipóteses formuladas.
Outros se aventuram e se arriscam a construir um roteiro explicativo para tudo isso. E muitos apenas bradejam indiscriminadamente o “número do sapato do ET”. A estes, que aplicam suas convicções pessoais como método de pesquisa e divulgação confirmatória, cabe apenas um simples e universal: STOP!
A que tudo isso leva, e o que tudo isso indica àqueles que casualmente assistem a um vídeo no YouTube, a um corte no TikTok ou leem um card no Facebook? Viés confirmatório. Convicções estabelecidas, certezas indubitáveis e, posteriormente, crenças fundamentadas. Mas tudo isso construído apenas sobre a irresponsabilidade daqueles que, em cards, textos, vídeos, cortes e entrevistas, disseram e dizem: “eles são assim…”, “eles são ‘assados’…”, sem nunca se preocuparem em afirmar: “apenas acredito” ou “é apenas achismo meu”.
Bem, o resultado de todas essas formas de conduta está cada vez mais visível – infelizmente – para aqueles que têm as vistas mais aguçadas.
Apenas considerações finais
Àqueles que, porventura, venham a ler todos esses questionamentos por completo, deixo mais um à disposição: será que realmente somos capazes, ou estamos prontos, para responder perguntas “irrespondíveis”? Será que conseguimos lidar com tais desafios? Ainda não, eu diria.
Apenas um futuro incerto nos dirá tudo isso. No texto acima, deixei muitas considerações e ponderações de lado e tratei de focar apenas no contexto mais sutil da questão.
Sei que existem muitos “porquês”. Num exercício mental, tais “possibilidades” são realmente inúmeras. Mas, no âmbito empírico, substancial e não abstrato, ainda nada temos a demonstrar.
Esse é um dos grandes problemas do assunto: como trazer a possível e provável realidade do fenômeno para o “mundo real”, de modo que se possam apresentar evidências e provas daquilo que pesquisamos? Todos sabemos que esse desafio permanece em aberto. Àquele ou àqueles que o conquistarem, todos os aplausos do mundo!
Por: Julio Tavares
