Terminou de ser exibido ontem o último dos três episódios da minissérie documental da Rede Globo que reviveu o nosso famoso, amado e polêmico Caso Varginha. O Mistério de Varginha relembrou em emoções o episódio ocorrido em 1996, em Minas Gerais, com antigos e novos depoimentos e testemunhas e, consequentemente, nos trouxe revelações definitivamente impactantes nas estruturas do caso.
A minissérie contou com a participação de figuras conhecidas, como os principais ufólogos, Ubirajara Rodrigues e Vitório Pacaccini, as “três meninas” Liliane, Valquíria e Kátia, além de outras personagens, como Carlos de Souza, que teria pego nos destroços da nave, e até mesmo o atual prefeito da cidade de Varginha, Leonardo Ciacci que testemunhou a impossibilidade de acessar o hospital devido à presença de militares na época.
Mas, mais do que apenas um simples documentário de viés confirmatório, O Mistério de Varginha trouxe um gigantesco terremoto que abala os pilares do incidente.
Ufólogo nº 1 nega o Caso
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a/internal_photos/bs/2026/k/8/4ZbyYeTaeMynRKSlwn2g/ufologo.jpg)
Todos sabem da mudança de posição do principal ufólogo do Caso Varginha, Ubirajara Franco Rodrigues. Há um bom tempo, ele vem revertendo seu ponto de vista, suas opiniões e sua postura em relação ao que realmente teria acontecido na época.
Em 2024, depois de anos sumido, ele voltou à cena em uma entrevista inédita ao ufólogo João Marcelo, em seu canal no YouTube, com verdades e absurdos. Lá, falou sobre a transformação da ufologia em religião, afirmou que “não existem evidências” e aconselhou até mesmo os pais a afastarem seus filhos da ufologia: “senhores pais, afastem seus filhos disso! O mais urgente possível”. No entanto, pouco se concentrou no Caso Varginha.
Dessa vez, de forma conveniente, Ubirajara surgiu como um terremoto de pedregulhos em rede nacional e para o grande público. Durante sua participação ontem no segundo episódio da série, “Bira” expôs seu alegado lado reflexivo sobre o ocorrido, falou em “clássico erro” e sobre ter induzido as meninas, que até então acreditavam ter visto um demônio, a crer que, na verdade, viram um ser extraterrestre.
Mas o mais impactante foi quando ele, munido de autoridade, claro, mas também – para muitos – de desonestidade, colocou o depoimento das três meninas no patamar de equivocado ou mentiroso, ao afirmar em alto e bom som que o que elas viram foi “um humano”, no caso, o “Mudinho”.
Para quem não sabe, Mudinho é um morador local que possui deficiência mental e vivia andando pela região. Ele tinha o hábito de sempre “ficar de cócoras”, agachado, e, segundo o IPM, o Inquérito Policial Militar da época em Varginha, o que as meninas teriam visto, na verdade, foi ele, o Mudinho, figura que, inclusive, era bem conhecida desde a infância pelas três, Liliane, Valquíria e Kátia.
“Conheço o Mudinho desde criança, meu pai tinha bar, o Mudinho frequentava, frequenta a cidade inteira até hoje, hoje menos, mas assim, frequenta a cidade inteirinha. Qualquer lugar que você andar ali no bairro Jardim Andere, você vai ver ele agachadinho, do mesmo jeitinho. A gente conhecia, não era o Mudinho”, disse Liliane.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a/internal_photos/bs/2026/p/x/kUBgwRSSqJ42Im3F1gqQ/versaomudinho.jpg)
Mas quem dera que a minissérie ficasse apenas nisso, com Ubirajara simplesmente negando o caso e afirmando que tudo não passou de uma confusão visual das mulheres.
Militares envolvidos
Na época, os seguintes militares foram citados como tendo participado do processo de captura e transporte da criatura; Segue os nomes que se encontram no IPM: Tenente-Coronel Olímpio Vanderlei dos Santos, Major Cav Edson Henrique Ramires, Tenente Inf Márcio Luiz Passos Tibério, Sargento Valdir Cabral Pedrosa, Cabo Renato Vassalo Fernandes, Soldado Ricardo Silvério de Melo e Soldado Cirilo Martins.
Dentre os nomes citados, o coronel Olímpio teria sido o comandante da operação. Ele sempre negou a história e, mais uma vez, agora na minissérie, reafirmou que nunca houve qualquer operação relacionada à captura e transporte de algum ser extraterrestre em Varginha.
O documentário também ouviu o comandante do Corpo de Bombeiros à época dos fatos, o capitão Pedro Alvarenga, que hoje mantém a mesma versão apresentada na nota oficial emitida na ocasião do ocorrido, de que o Corpo de Bombeiros de Varginha não capturou nenhuma criatura estranha.
Não menos importantes, além das testemunhas civis, o Caso Varginha contava com o depoimento de três testemunhas militares: o militar nº 1, um soldado do Corpo de Bombeiros; o militar nº 2, um cabo do Exército; e o militar nº 3, um soldado do Exército. Com base nesses três testemunhos, formou-se um pilar “oficial” do ocorrido.
Todos os depoimentos de militares foram obtidos pelo ufólogo número dois do caso, Vitório Pacaccini, como ele mesmo relatou. Pacaccini foi o responsável por colher as preciosas informações vindas de fontes militares, que relataram desde a captura até o transporte e o envio ao hospital Humanitas.
Mas a história desses depoimentos tomou um desfecho avassalador ontem, pois dois dos três militares que confidenciaram seus relatos ao ufólogo na época, afirmaram que tudo não passou de uma história forjada, um enredo criado pelo próprio ufólogo para dar mais credibilidade ao caso.
Militares voltam atrás e relatam mentiras e subornos
No ano passado, o ufólogo João Marcelo, amigo pessoal de Ubirajara Rodrigues e investigador do caso, divulgou parte do áudio do histórico depoimento do bombeiro Robson, a testemunha nº 1 mostrada na minissérie.
Robson, que até então tinha seu nome preservado, sendo apenas de conhecimento de poucos dentro da ufologia, foi contatado por João Marcelo alguns anos atrás e autorizou a divulgação de parte de seu depoimento. Mas, além de conceder permissão, ele também contou uma outra versão da história: tudo não teria passado de uma farsa.
“Aquilo lá foi manipulado, manipulação, né. Não teve nada, nada, nada. Foi tudo uma manipulação”, relatou ele em áudio.
De acordo com o militar, ele teria sido “hipnotizado” e, diante de tanta insistência do ufólogo Pacaccini, acabou contando, inventando a história.
No entanto, segundo Pacaccini, ele mesmo teria instruído e orientado o bombeiro a negar o relato se, porventura, em qualquer momento, não se sentisse à vontade para confirmar seu testemunho a ninguém.
Mas o depoimento mais polêmico veio do militar nº 3, que contou que a história não só foi fabricada, como também foi comprada e, ainda por cima, que teria recebido um calote. O militar afirmou que tudo não passou de uma criação do ufólogo Pacaccini junto a um ato impensado da juventude.
“Foi tudo uma criação, invenção da cabeça do Vitório. Foi uma história ensaiada.”
Embora também relate que tenha ficado com bastante medo, aceitou participar, pois também teria havido promessas. Ele conta que lhe foi oferecida uma boa quantia em dinheiro, algo em torno de 5 mil reais, o que era muito dinheiro para a época.
Além do alegado suborno, ele disse que foi motivado por exemplos de outros militares em gravações de vídeos testemunhando para Pacaccini e exibidos a ele pelo próprio ufólogo.
“Prometeu muitas coisas pra gente, pra uns ele honrou a palavra e pra outros não.”
“Pra fulano ali eu dei uma moto, pra esse outro fulano ali eu te dei uma quantidade ‘x’ em dinheiro”, teria dito o ufólogo a ele para convencê-lo.
O militar ainda alega que levou um calote, pois, segundo ele, nunca recebeu o que lhe foi oferecido. Ao ser questionado se Pacaccini o pagou, ele disse:
“Não, ele sumiu. Depois que saí do Exército, que dei baixa, nunca mais tivemos contato.”
Ele afirma que hoje está arrependido, pois contou uma história que nunca aconteceu, e a única coisa que ganhou foi uma culpa enorme por tudo o que fez.
“Naquele dia, a gente vendeu a alma pro diabo”, afirmou.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a/internal_photos/bs/2026/f/X/ta1zZsSUWLDAkJrxTw5w/militardesmente.jpg)
Em relação a essa acusação, Vitório Pacaccini respondeu que nunca pagou nada a ninguém, que “nunca existiu nada disso” e que “ninguém convenceu ninguém de coisa alguma”. Segundo ele, no dia em que conheceu o militar nº 2 e conversou com ele, também conheceu e conversou com o militar em questão.
Dos três militares, o único que manteve sua palavra foi o nº 2, o cabo do Exército. Segundo ele, teria visto a criatura dentro de uma caixa de madeira coberta por um saco, e que viu os pés e as protuberâncias, achando, a princípio, que se tratava de uma pessoa queimada, mas que nunca pensou que fosse a tal criatura.
Ele também foi questionado pela equipe se não teria recebido algum dinheiro para contar aquela história. Isso porque o dono de um hotel em Varginha, o Sr. Carlos, presente na minissérie, afirma que sim, que ele recebeu, e que inclusive foi o próprio quem o indicou a Pacaccini após o militar procurá-lo contando o que teria visto da criatura.
O militar nega essa versão e diz que nunca recebeu nada.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a/internal_photos/bs/2026/l/B/gFYOpmRzKuutTqEcgVAQ/militar2.jpg)
Médico diz ter visto pessoalmente um dos ETs
O médico neurologista Ítalo Venturelli, que há algum tempo revelou ter assistido a um dos supostos vídeos do caso, e mais recentemente, em depoimento ao cineasta James Fox, em um outro documentário sobre o Caso Varginha; Moment of Contact: New Revelations of Alien Encounters, ter visto pessoalmente um dos seres envolvidos no episódio, também voltou a afirma em O Misterio de Varginha, o que viu. Segundo ele, o alienígena “era como um anjo”.
“Cheguei lá e o colega disse: ‘Ó, chegou aqui um negócio diferente, você podia dar uma olhadinha?’”, relatou Venturelli. De acordo com seu testemunho, o ser apresentava características incomuns: “O crânio tinha forma de gota, era branquinho, com boca pequena e olhos lilás, também em forma de gota.”
O médico também alegou que o ser era “branquinho”. Essa descrição levanta questionamentos sobre o que ele realmente teria visto, já que difere significativamente das descrições mais comuns atribuídas à criatura no caso Varginha. Teria havido mais de um tipo de ser?
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a/internal_photos/bs/2026/z/0/h7qm4BRwqMZEAEwPQ8GA/medicoitalo2.jpg)
Verdadeiro ou não, seu depoimento é, de alguma forma, substancial e adiciona um novo elemento à complexidade do caso.
Badan Palhares ‘se torna acessível‘
Esqueça as três meninas ou os militares. Se houvesse um campeonato para escolher a testemunha mais relevante, essa não seria quem viu ou quem capturou, mas sim quem teria examinado a criatura. E, para essa vaga, há um nome que sempre foi citado: Dr. Badan Palhares.
Então chefe do Departamento de Medicina Legal da Unicamp, Badan Palhares era nacionalmente conhecido por sua participação em casos famosos, como o assassinato de PC Farias e o das ossadas de desaparecidos da ditadura militar.
Como todos sabem, ele sempre foi apontado como o responsável por analisar a criatura em um laboratório secreto dentro da Unicamp.
Sempre negando e evitando, em absoluto, fornecer qualquer informação relacionada ao tema, hoje, aos 82 anos, o proeminente médico revelou ter recebido uma “misteriosa ligação” naquela época, pedindo para que não saísse do laboratório, pois o Exército chegaria lá com um material vindo de Varginha.
“Eu me recordo de ter recebido um telefonema, em que, estranhamente, me informaram que eu não saísse do laboratório, porque uma equipe do Exército brasileiro estava levando para lá um material vindo de Varginha, e que era um material que era importante para ser feito o trabalho de exumação completa. E esse material não chegou até hoje”. Badan Palhares.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a/internal_photos/bs/2026/Q/d/pNbCKBR5y9839ZWAflFA/design-sem-nome-29-.jpg)
Essa informação de Palhares, embora vaga, como era de se esperar, revela um dado relevante, pois ele, que sempre negou tudo, agora admite que recebeu uma ligação solicitando sua permanência local pois receberia um material de exumação da Secretaria de Segurança Pública.
No entanto, afirma não se recordar se o assunto teria relação com um extraterrestre, algo que, obviamente, seria impossível de esquecer.
Muita coisa ainda nos reserva Varginha
A minissérie documental da Rede Globo trouxe revelações que, indubitavelmente, abalam as estruturas do caso, mais negativamente do que positivamente, mas isso ainda deixa o episódio longe de ser definitivamente desmentido. Afinal, o que justificaria a movimentação atípica do Exército na região? Um parto de um casal de anões?
O que as meninas realmente viram? Um deficiente mental, que viam desde pequenas e conheciam muito bem, em plena luz do dia, confundido com um ser demoníaco, de chifres e olhos vermelhos? E as outras testemunhas, como no caso dos dois pedreiros e da senhora do zoológico, que afirma ter visto um ser estranho enquanto saía para fumar no local?
Em relação aos testemunhos militares, por que hoje o nº 2 ainda mantém sua palavra, enquanto os outros dois, o nº 1 e o nº 3, voltaram atrás? Se tudo já foi explanado, não seria a hora de quebrar o sigilo e o monopólio das informações e expô-los ao público?
Para alguns, o caso ainda irá permanecer sólido; para outros, Varginha, depois dessa minissérie, caiu por terra.
O fato é que nada parece ser tão simples. Vitório Pacaccini afirma ter visto um vídeo em 2022, que mostraria uma das criaturas capturadas. Assim como havia afirmado a princípio o neurologista Ítalo Venturelli, e que agora alega ainda mais, diz ter visto de fato a própria criatura.
Segundo especulações, existiria mais de um vídeo, o que poderia representar uma prova empírica do que realmente teria sido capturado em Varginha, em 1996. Pelo visto, agora mais do que nunca, o caso precisa de algo além de testemunhos humanos, já que estes se mostraram subjetivos, tornando necessária uma prova cabal.
