Mesmo antes de o infame MKUltra se tornar público, a comunidade de inteligência dos Estados Unidos já conduzia outra iniciativa secreta voltada ao controle da mente. Documentos desclassificados revelam detalhes do chamado Projeto Artichoke, que operou entre 1951 e 1956 e investigou métodos de manipulação comportamental, técnicas avançadas de interrogatório e estratégias de influência psicológica.
O relatório, intitulado “Special Research on Artichoke”, foi adicionado à sala de leitura eletrônica da Agência Central de Inteligência em 2025. Composto por sete páginas e um anexo chamado “Suggested Areas for Special Research Related to Artichoke”, o documento apresenta propostas para o desenvolvimento e a aplicação de substâncias capazes de afetar diretamente o comportamento humano.
Entre as linhas de pesquisa estavam drogas destinadas a produzir efeitos imediatos, como os chamados soros da verdade, bem como compostos voltados a provocar alterações graduais e de longo prazo na personalidade ou na disposição psicológica de um indivíduo. O texto inclusive menciona a possibilidade de administrar essas substâncias de forma encoberta, misturadas a alimentos, água, bebidas alcoólicas ou cigarros.
Outra proposta examinava a ocultação dessas substâncias em procedimentos médicos, incluindo vacinas ou injeções, potencialmente ampliando seu alcance enquanto minimizava suspeitas.
Além da experimentação química, o programa também explorou métodos não farmacológicos. O documento faz referência a investigações sobre hipnose, privação sensorial, uso de gases e outras abordagens psicológicas voltadas ao interrogatório e ao condicionamento comportamental.
As revelações também destacam a história controversa das pesquisas conduzidas no início da Guerra Fria, período marcado pelo temor de técnicas de lavagem cerebral supostamente utilizadas por potências rivais. Segundo os registros, o Projeto Artichoke lançou as bases para iniciativas posteriores, incluindo o MKUltra, que mais tarde se tornaria alvo de intenso escrutínio público e investigações oficiais.

O documento foi desclassificado em 1983, mas permaneceu em grande parte desconhecido do público em geral por décadas. Recentemente, porém, ele ressurgiu nas redes sociais, onde provocou indignação à medida que usuários reagiram a trechos que mostram a Agência Central de Inteligência discutindo métodos que pareciam envolver “drogar populações inteiras”.
O Projeto Artichoke surgiu nos primeiros anos da Guerra Fria, período marcado por intensa tensão geopolítica e ampla ansiedade em relação às potências comunistas. Na época, relatos de que prisioneiros de guerra americanos na Coreia haviam sido submetidos a técnicas de lavagem cerebral alimentaram sérias preocupações dentro da comunidade de inteligência dos Estados Unidos.
Memorandos internos da CIA sugeriam que autoridades americanas temiam que nações hostis pudessem ter desenvolvido métodos eficazes para controlar o pensamento e o comportamento humanos. Essa percepção levou a agência a explorar suas próprias capacidades de manipulação psicológica e farmacológica.
O relatório desclassificado revela a profundidade dessas pesquisas. Em uma das seções, destaca-se a necessidade de estudos “para determinar quais drogas são mais adequadas para uso direto em indivíduos, nos moldes do amital e do pentotal”, bem como para avaliar “quais drogas seriam mais apropriadas para uma abordagem indireta ou de longo prazo”.
Os pesquisadores envolvidos no programa secreto enfatizavam que compostos de longa duração deveriam ser capazes de produzir “um efeito agitado, causando ansiedade, nervosismo, tensão etc.” ou, alternativamente, “um efeito depressivo, criando sentimentos de desânimo, desesperança, letargia etc.”
O documento também descreve considerações práticas sobre ocultação, observando que tais substâncias poderiam potencialmente ser introduzidas de forma sorrateira em “alimentos, água, Coca-Cola, cerveja, bebidas alcoólicas, cigarros etc.”, ressaltando o foco da agência em métodos de influência que fossem difíceis de detectar e potencialmente aplicáveis em larga escala.

Além disso, o relatório recomendava consultar o Corpo Químico do Exército dos Estados Unidos, observando que ele já havia conduzido “estudos extensivos nessa área”. Segundo o documento, essa cooperação poderia fornecer orientação técnica e estratégica específica para o avanço do programa.
Para além do uso de drogas, o Projeto Artichoke investigou uma ampla gama de ferramentas psicológicas.
Trechos do relatório fazem referência à hipnose, a técnicas psicológicas e ao uso de gases, aerossóis e privação de oxigênio, demonstrando que a CIA buscava integrar abordagens químicas, ambientais e mentais em suas pesquisas sobre controle comportamental.
Os pesquisadores também questionavam se esses métodos poderiam compelir indivíduos a realizar ações contra a própria vontade, incluindo atos potencialmente criminosos, sem que estivessem plenamente conscientes do que estavam fazendo.
Experimentos conduzidos no âmbito do programa frequentemente envolveram indivíduos vulneráveis, incluindo prisioneiros, militares e pacientes psiquiátricos, muitas vezes sem qualquer forma de consentimento informado.

Embora grande parte da documentação tenha sido destruída em 1973, uma parcela significativa dos arquivos sobreviveu. O material remanescente indica que a CIA, trabalhando em conjunto com parceiros institucionais, levou ao limite as pesquisas sobre manipulação psicológica. As preocupações éticas parecem ter sido frequentemente subordinadas a prioridades estratégicas ligadas à segurança nacional.
Em 1953, o Projeto Artichoke foi incorporado a uma iniciativa mais ambiciosa: o programa MKUltra. Com um escopo ampliado, o novo projeto intensificou os experimentos, especialmente com substâncias alucinógenas como o LSD, aprofundando as investigações sobre controle mental.
O MKUltra operou por meio de centenas de subprojetos conduzidos em universidades, hospitais e estabelecimentos prisionais. Em muitos casos, os participantes não sabiam que estavam sendo submetidos a experimentação. A revelação dessas práticas na década de 1970 provocou forte reação pública durante audiências no Congresso dos Estados Unidos, especialmente nas investigações conduzidas pelo Comitê Church.
